quarta-feira, 29 de junho de 2011

Jerome saiu pro mar


Na praia do Mucuripe,
Barra do sol vai quebrar,
Quatro homens tão rolando
Uma jangada pro mar.

A noite deu cruviana,
O dia, bom de pescar
E, se nada agourar,
Mestre Jerome tem fama,
Vai peixe no samburá.

Cavala, ariacó,
Cangulo, serra e guaiúba,
Voam seis paus de piúba,
Até na risca beirar,
Mode Jerome botar
Biquara no samburá.

Venta leve no velame,
Céu aberto sem guarida,
A jangada faz dormida,
Bucha de coco queimando,
Feito vela alumiando ...
E um navio a toda a brida.

Lá fora, noite é escura,
Sentinela dormitando,
Não deu tempo pra evitar,
Brusco choque na piúba,
Jerome sumiu no mar.

À tardinha, o Mucuripe
Não vê ninguém mais chegar,
Só destroço de piúba...
E um resto de samburá.


Jerônimo, na poesia “Jerome”,  fez - com Jacaré, Tatá e Mané Preto -  o primeiro percurso de jangada até o Rio de Janeiro em 1941: o “raid da São Pedro”. Participou de mais dois “raids”: em 1951, chegou até Porto Alegre; em 1958,  novamente à  capital federal. O épico da São Pedro inspirou um filme de “Orson Welles”, tendo os próprios jangadeiros como atores.
Em 1965, de madrugada, Jerônimo foi, com o pescador Zezito, pescar no mar, lá pras bandas do Pecém . Não voltou. Sua jangada foi atingida por um navio.
Fontes:
1 Do mar ao museu – A saga da jangada São Pedro. Berenice Abreu de Castro Neves. Museu do Ceará. 2001.p. 15 a 17.
2 Mucuripe – De Pinzón ao Padre Nilson. Blanchard Girão. Fundação Demócrito Rocha, 1998. p. 79, 101 e 102.

http://fortalezanobre.blogspot.com.br/2009/10/mucuripe-vila-de-pescadores-que-virou_21.html

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Buzinar no Ceará

Você pode me explicar
Causa que no Ceará
Tem uns elementos lá
Que adoram  buzinar?
Nem bem se abre o sinal,
O inseto animal
Larga o pau a buzinar.
E se a gente reclamar,
O meliante arrochado
Faz beiçim de magoado
E parte pra nos pegar.
É de matar esse vício,
Só tortura de cilício
Nas oiças. Haja Suplício!
Arrisco uma explicação
Pra essa esculhambação
De tanta buzinação.
Não pense que é achismo,
Ou mesmo cientificismo.
Buzinar é mais machismo,
Ou instinto sexual?
Buzinar, Freud explica,
Sublima, e aí complica.
Será prótese oral,
A corneta de metal?
E haja divagação ...
Mania lá do sertão,
Costumava o cidadão,
Se desandar a coçar
O saco lá no calção.
Hoje, não coça o quinhão,
Mas herdou, em seu lugar,
O terrível comichão,
A ira de buzinar.
E até mulher letrada,
Imitando a macharada,
Copiou essa ingresia,
De escumar cristão de azia.
Pense... numa agonia!
Tá, parte da mulherada,
Sem nem ter o que coçar,
Buzinando sem parar.
Desse jeito é de lascar!

George Alberto de Aguiar Coelho
Escrito em 31jan2007




quarta-feira, 22 de junho de 2011

De Petrolina pro Crato

Dedicado à Rachel de Queiroz

De Petrolina pro Crato
Viajo de caminhão,
Eita caminho ingrato!
Aperta meu coração.
Dia e meio de viagem
Pra vencer o chapadão,
Atravessa até visagem
Na frente do caminhão.

Passageiro na boléia,
De Petrolina pro Crato,
Caminhão quebra a biela,
Carece comer no mato.
Vai coração e moela,
Mais farinha no meu prato,
De galinha e cabidela,
Que eu quero chegar no Crato.

Seu Silveira, mais cuidado!
Tome tenência na estrada!
Vaqueiro aboiando gado,
Bode, jumento capado.
Fumaça o radiador,
Bota água no buraco,
Só se some esse calor,
Se a gente chegar no Crato.

Seu Silveira, açulera
O diabo do caminhão,
Quebrou de novo a biela,
Remenda na escuridão.
Desce de novo a panela,
Põe água desse grotão,
Eu quase quebro a costela,
Me queimei num cansanção.

Espia a crina da serra,
Escondido, tá o Crato,
A carga se desmantela,
Cheiro gostoso de mato.
Descendo, vai de banguela,
Mas nem sempre sai barato,
Me dá um nó na goela,
Mãe... tou chegando no Crato!.

George Alberto de Aguiar Coelho
Escrito em 17/07/2007 


Fonte: O Caminhão de Seu Silveira. Rachel de Queiroz.
A Donzela e a Moura Torta,
José Olimpio Editora. RJ, 1989, p. 13 a 19.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Viva Niemeyer - a vida é um sopro!

Tio Oscar me diga uma coisa:
Onde o Senhor se inspirou
Pra tanta coisa bonita
Que Vosmicê desenhou?
Foi aí nas Alterosas
Ao mirar o sol se pôr,
Ou foi em Copacabana,
Nas calçadas que riscou?

A igreja da Pampulha,
Casa de Baile, o Museu,
Onde o Senhor aprendeu,
Qual rendeira com a agulha,
A idéia, a fagulha,
Manusear o cinzel?
De certo, foi mão de Deus
Estendida lá do céu.

Veio o Itamaraty
Do pico do Itacolomy?
Foi do cerrado central,
As curvas maravilhosas
Da branquíssima Catedral,
Mãos rezando pro mais alto;
Poucas linhas se findando
No Palácio do Planalto?

Foi na ginga da mulata,
Ou da morena trigueira,
Ou foi em Diamantina,
Com a namorada mineira?
Foi estética majestosa
Leves curvas da jangada.
Sei:  foi o lábio vermelho,
beijo da amante amada.

George Alberto de Aguiar Coelho
Homenagem aos 100 anos de Niemeyer.
Escrito em 19.12.2007.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Cordialidade brasileira

Em "Raízes do Brasil", Sérgio Buarque de Holanda fala de uma característica bem nossa. Mostra que a contribuição brasileira para a civilização será darmos ao mundo: "o homem cordial". Nossa cordialidade se manifestaria antes na hospitalidade, generosidade etc. do que propriamente no obedecer aos rituais, formalismos e etiquetas sociais que caracterizam a racionalidade, a civilidade. Como exemplo, o japonês é cerimonioso, repleto de rituais que cumpre rigorosamente, quase religiosamente. O brasileiro, não. É antes um ser emocional e as virtudes de sua cordialidade expressam não o obedecimento a normas, rituais, mas uma busca da intimidade com os que se relaciona. Adoramos os diminutivos, porque nos tornamos íntimos de quem os têm: Carlinhos, Aninha, Pedrinho, Ritinha...

Aqui no Ceará, a informalidade é mais forte ainda. Mal alguém se nos apresenta no elevador e já estamos lhe dando tapinhas nas costas, convidando pruma cervejinha, prum barzinho beleza. A coisa é de tal maneira que a propaganda, vendo isso, pelo induzimento do contraste, já nos quer empurrar, goela abaixo e contra nossa natureza, não tão somente a cervejinha, mas o cervejão: "Agora é o cervejã..ããããooo...". O artigo do link abaixo é muito interessante e fala da vantagem que levam no trabalho os profissionais gentis. Interessante é que é baseado em livros de autores estrangeiros. De tal forma que creio tal  melhor resultado (de ser cordial) não se consegue apenas no Brasil: gente gosta de carinho aqui e em todo lugar.

Brasileiro, assim, pode usar a sua natureza cordial, para obter vantagem comparativa no trabalho. Quer dizer: ganhar mais grana. Nada mal, ou mesmo "desde que", aliado à nossa  cordialidade  nata, a gente ponha um pouco de disciplina japonesa no modo de agir. Mas... pensando um pouco melhor: não exageremos com a disciplina. Ora, antes a esculhambação alegre do carnaval do que a radiação racional emitida pelos reatores de Fukushima. 



Das coisas que gosto


Cavalim de carnaúba,

Jangadinha de piúba,

Peteca feita de milho,

Andar em cima do trilho,

Na ponte de trem do rio,

E o vento, frio arrepio.

Correr com chuva no campo,

Ver no escuro o vaga-lume

Sentir o cheiro do estrume

E medo do campo santo.


George Alberto de Aguiar Coelho

Nordeste Ceará

Do Ceará, Alencar
O escritor que inventou
O Romance brasileiro
A Rachel de Quixadá
Padre Cícero Romão
O Santo do Juazeiro

Leonardo Mota, o Leota
Vaqueiros e cantadores
Dragão do Mar jangadeiro
Bárbara e Tristão de Araripe
Cangaceiros e heróis
O sol tostado guerreiro

Capistrano de Abreu
O maior  historiador
Desse solo brasileiro
Chico Anisio e o Tom
É Tiririca pra rir
Quintino Cunha primeiro

Beviláqua e Bonavides
Escreveram o melhor
No direito brasileiro
Patativa do Assaré
Cego Aderaldo e Galeno
Poetas do meu terreiro

Montenegro e o ITA
É muita cabeça chata
Conta demais de engenheiro
Jader, Barroso e Djacir
Martins Filho e Mourão
Canudos tem Conselheiro

Belquior, Fagner e Nilo
Aldeota e Mucuripe
É solo bem brasileiro
Humberto Teixeira Asa Branca
Evaldo Gouveia e Iguatu
Caatinga aqui é canteiro

George Alberto de Aguiar Coelho

Se o relógio bate, às vezes, solidão

Pro frio forte, me basta um cobertor
Pra fome e sede, preciso d´água e pão
Tomo remédio pr'aliviar a dor
Mas mesmo assim, inda não me sinto são
Aperta minha mão. Careço de amor
Se o relógio bate, às vezes, solidão.

George Alberto de Aguiar Coelho

Se o Piauí se findasse ...


Assum preto e nambu,
Surucucu e jacu,
Mandacaru, colibri.
Redemoinho, calor,
Corisco e beija-flor,
Você vê no Piauí.

Rapadura e paçoca,
Verde mata, quando brota,
Maria preta, tingüi.
Cuscuz, beijú, mugunzá,
Milho assado, aluá,
Você vê no Piauí.

Mel de abelha Jandaira,
Guabiraba, macambira,
O doce de buriti.
Asa branca, acauã,
Jaçanã, cajá, romã,
Você vê no Piauí.

Macaco e papagaio,
Pica-pau picando galho,
Légua de beiço: “Bem aí...”.
Tejo e tamanduá,
Piau, traíra e cará,
Você vê no Piauí.

Aroeira, sabiá,
Umarizeira, preá,
Mandioca e piqui.
Canafístula, mocó,
Camaleão e potó,
Você vê no Piauí.

Mel de abelha Uruçu,
Cobra, peba e tatu,
Parnaíba, rio Poty.
Pitomba, siriguela,
Cachaça que queima a goela,
Você vê no Piauí.

Lobisomem, jacaré,
Visagem andando a pé,
Carne seca e açaí.
Croatá, carnaubeira,
Curica, pedra e madeira,
Você vê no Piauí.

Cajuína cristalina,
Menina de Teresina,
Espiando um sagüi.
Burra presa que se zanga,
Menino chupando manga,
Você vê no Piauí.

Homem mais velho andara
Na serra da Capivara,
Ata, murta e bacuri.
Ronco em rede de tucum,
Sob um pé de araticum,
Você vê no Piauí.

Se o Piauí se findasse,
Embora uns não achassem,
Falta mesmo, sim, faria,
Até pra economia,
Que jamais será seu forte.
Decretada sua morte,
E levado em rede funda,
Procissão se formaria,
O planeta choraria,
Água por todos os pólos,
Que o gelo se fundiria,
Naufragando todo o norte,
- Deus o livre dessa sorte -
E demais países baixos,
Tulipas, rosas em cacho,
Nova York, Amsterdã,
O porto de Roterdã,
Pessoas, quinquilharias,
Pouco ou nada sobraria...
Deus mercado vinha abaixo.

Se o Piauí se findasse,
Quem sabe, você chorasse
E deixasse de fereza,
Com minha terra querida
Piauí é natureza
E a natureza é a vida...

George Alberto de Aguiar Coelho
Escrito em Fortaleza-CE 28.08.2007

Mote:
http://apublica.org/2011/06/wikileaks-consul-e-fhc-ironizam-movimento-%E2%80%9Ccansei%E2%80%9D/
“Não se pode pensar que o país é um Piauí, no sentido de que tanto faz quanto tanto fez. Se o Piauí deixar de existir ninguém vai ficar chateado”. Zottolo (Só Tolo) -presidente da Philips no Brasil

Pinzón descobre o Brasil

Nos verdes mares bravios,
Vento sopra, agudo som,
Alvas velas voam leves:
São navios de Pinzón.
Brancas dunas, sol aberto,
Terra vai de encontro ao mar,
O Brasil é descoberto,
Mucuripe, Ceará.

George Alberto de Aguiar Coelho

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Enivrez-vous

Embriaga-te sempre. É preciso.
Eis a única questão.
Pois o tempo é o fardo horrível
Que nos curva para a terra.
Embriaga-te sem trégua.
De quê?
De vinho, de poesia,
Ou virtude. À tua fantasia.
Mas embriaga-te.
E se por algum caminho,
Ou quarto, em solidão,
Voltar-te, a razão,
Indaga ao vento, à vaga,
Ao pássaro, à estrela, ao relógio,
A tudo que rola, geme, fala,
A tudo que canta, passa,
Pergunta que horas são.
E o vento, e a vaga,
O pássaro, a estrela, o relógio,
Eles te responderão,
De embriagar-te, é hora;
Pra que não sejas, do tempo, escravo,
Embriaga-te agora,
Embriaga-te sem trégua,
De vinho, de poesia,
Ou virtude. À tua fantasia.

De Charles Baudelaire (In Les petits poèmes en prose) http://www.franceweb.fr/poesie/baudel1.htm
Tradução e adaptação: George Alberto de Aguiar Coelho e Eric Claude Leurquin (Professor de Francês - ericboxfrog@ig.com.br)

O Brasil que trabalha...

Já li muitos emails, alguns raivosos, afirmarem que o Sul do país sustenta o Norte. Sul e Norte tomados em sentido geográfico amplo. Faço a seguir algumas considerações sobre isso.

Faz um tempo, li numa revista de mineração que o Pará ultrapassara Minas Gerais na produção de minério de ferro, transportado pelo porto de Itaqui no Maranhão. Brevemente, a Bahia seria o terceiro na lista. O Ceará também está produzindo ferro e o Piauí vai no mesmo rumo. De quebra, além da ganga transportada no porto do Pecém, o Ceará espera urânio e fosfato de Itatira e colhe o sopro do vento pra alumiação das cidades. Pernambuco faz navios. Petrolina e Juazeiro são polos exportadores de frutas. Rio Grande do Norte, Sergipe e mais estados do Nordeste produzem petróleo. A Paraiba, algodão. Alagoas, açucar e álcool. E o Piauí vê a sufocante soja crescer engolindo a mata que lhe dá o mel nativo.

Confesso que não tou nada entusiasmado com o progresso. Primeiro, porque PIB e bem estar, nem sempre andam juntos. Quanto mais se produz commodities, mais as danadas barateiam. Exemplo antigo é o café de São Paulo. Em outras eras, queimou-se café, comprado pelo governo federal, pra sustentar o preço. Num mundo de fome, um atentado ao bom senso. Pra economia, decisão acertada. Pois bem, o mundo de hoje carece de sempre produzir mais no ganho crescente da mais-valia dando razão pro velho Marx. Por outro lado, produzir é barato porque produto nenhum reflete seu custo. O custo do transporte, por exemplo, não considera a poluição do ar, nem o custo dos acidentes no sistema de saúde. Quando se produz refrigerante, não se leva em conta os danos aos rios, mares, lagoas, entupimento de pet´s nos bueiros das cidades alagadas etc. Tudo vai num saco só de coisa boa chamado PIB que o lixo vai pra baixo do tapete. E por fim se exulta: somos a sétima economia do mundo!

Creio, chegou a hora de se falar menos em crescimento sustentável e mais em decrescimento sustentável. Sustentável que é pra evitar sopapo forte, tanto no crescer quanto no decrescer. Apenas, não há mais escolhas a fazer, se gente quer ter futuro. Tem de inverter o processo e ponderar pelo decrescimento já, senão não dá mais tempo. Até vi recentemente na TV que o Piauí estava num ritmo de crescimento nunca antes visto. Algumas cidades se espraiando por conta da produção de soja trazida por gaúchos. O recado tava no ar: que a gente dos pampas dava lição aos piauienses etc. Um governante nativo, no defeso, chegou a dizer que isso se devia ao fato de os primeiros piauienses serem vaqueiros, que traziam a cultura do produzir apenas o suficiente pra si e nada mais. Menos verdade, não é. Mas não se trata de defeito maior. Ressaltando que se tem diferença entre pilotar cavalo e colheitadeira, os dois dão trabalho suado e o primeiro é até mais perigoso pelos espinhos desalmados da caatinga.

No entretanto e debruçado na janela do tempo, se pode ver a produção piauiense de soja de outra maneira. Quem lucra com tal produção? A soja serve pra pagar o produtor a pagar as dívidas e embolsar uns trocados. Mas lucro pra valer, e crescente, deve ser de quem monopoliza a semente de soja resistente ao veneno; bem como de quem mercadeja o produto ao estrangeiro. Verdade que cidades piauienses crescem. A ponto de discursarem pro desmembramento infeliz do estado, como fazem agora com o Pará. Agora, no contraponto, quem perde? Em primeiro lugar: o meio-ambiente. Trata-se de produção de monocultura, com avanço em cima do cerrado. Espécies vivas são dizimadas aos montes, penso eu. E, de quebra, a lei dos rendimentos decrescentes do Seu Malthus já deu no couro de muito solo viciado em soja transgênica e calcário. De sobra, não lucra o pequeno produtor do Piauí, pois nem roça pra plantar feijão, milho, melancia e jerimum ele vai ter mais. E a curva da desigualdade da Gini? Vai melhorar? Vai nada! No derradeiro, de vez perde o Brasil, pois o patrimônio maior da gente não é soja, mas sim a biodiversidade.

Brasil com capitães das esquerdas e das direitas, vide Código Florestal em trâmite, deixando escapar a chance de ser a grande nação criadora do inusitado “Nunca antes neste país, se pensou na vida, enquanto é tempo”. Esse devia ser o discurso de país feliz à la Butão. Bem diferente de Brasil que briga pra sediar Copa do Mundo e Olimpíada, que arenga pra fazer parte do Conselho de Segurança da ONU, aliás órgão deveras tolerante às grandes potências mundiais, quando pisam o direito internacional. Perde o Brasil em copiar modelos de desenvolvimento que tão acabando com o mundo. E mais perde quando não exige e implanta políticas de compensação financeira pra quem mantêm suas reservas naturais preservadas. Isso, nem novo é. Exemplo: o abastecimento d´água de Nova York ia ser feito com construção de sistema de tratamento caríssimo. Aí surgiu um sujeito que propôs pagar aos proprietários de terra a montante serviço outro que não fosse à conservação de nascentes e rios. Resultado: custo muitíssimo menor pra água limpa de origem.

E quanto aos estados do Norte do Brasil? São mesmo pedintes do Sul maravilha? Ora, devagar com o jumento que o pote é de barro! Certo é que a gente se transformou em país mega exportador de produto primário. É chique ser player! A coisa vinha desenhada de 30 anos pra cá. Investimento pesado na mineração e energia era coisa pra Viúva. Tem reportagem interessante na Revista Visão de 1978. Ali, um mega empresário da Paulista pedia ao governo militar recursos federais pra viabilizar extração de alumínio em Trombetas no Pará, que a iniciativa privada não tinha porte pra isso, que era dever do Estado e não sei quê mais. Ora, ninguém é bobo, a necessidade de commodities tava chegando às portas. Na China de Mao pra Den-Shiao-Pin, faminta de matéria prima, nem passou dinastia. E hoje o PIB do Brasil vem basicamente da mineração. Escolhemos, ou nos escolheram, pra sermos fornecedores de matéria prima do mundo. Só isso! Pensar? Nem pensar! Por outro lado, dentre os itens da mineração, se sobressai o ferro. Ora, se o ferro é a principal alavanca das exportações brasileiras, por que então o estado do Pará seria pedinte de recursos da União? Não os têm suficientes pela mineração?

Não sei resposta. Mas quero ir além dos tributos e da engenharia da ICMização estadual que já explicam muito a transferência de renda do Norte pro Sul. Gostaria de olhar pra Paulista e ver se a mesa que fecha o câmbio do minério do Pará não tá nela instalada. Sou curioso de saber por que a inteligencia da mineração pousou em campus de ciência e tecnologia nos arredores de Minas, e não fez o mesmo no Pará. Desconfio que são decisões políticas de quem tem o poder do mando. Tem muito a ver com a história. Se D. João VI no proveito da dormida em Salvador, onde escapou das tormentas da viagem, tivesse se instalado de vez na Bahia... Se Recife continuasse a Maurilândia, maior cidade da América Latina prorrogando a saga de Mauricio de Nassau... Se a Confederação do Equador, com pernambucanos e cearenses, tivesse triunfado desalojando D. Pedro I do Império... Se cearenses e piauiense, após centenas morrerem, não tivessem encarcerado o Major Fidié, comandante das tropas portuguesas que mantinha o Norte sob o reino de Portugal, mesmo após a independência do Brasil... Se o cearense Montenegro tivesse dado uma doideira nele e instalado o ITA em Irauçuba... Se os bancos grandes não tivessem engolido os pequenos... Se tivéssemos sede de banco gigante no Juazeiro do meu Padrim, assim como temos dezenas de nano bancos, igual ao Palmas do conjunto Palmeiras, em Fortaleza, com moeda própria e tudo. Tudo no condicional!

No indicativo presente, só as transferências financeiras de ruma que os mega bancos e administradoras de cartões levam pras sedes. E onde ficam estas senão no Sul? Isso tá na planilha dos paga/recebe? Voltando ao rumo Norte, como fica, por exemplo, o Pará? É ou não é o principal responsável pelo sucesso da balança comercial? Se é, vai ficar mesmo só com o buraco da terra exaurida? Nenhum royaltie pra ressarcir o Pará do minério extraído? Nenhuma universidade, centro de pesquisa e tecnologia no Pará, por conta da mineração e do resultado das exportações? E quanto à Amazônia? É pra produzir mais do que já o faz a sua biodiversidade? Será mais importante tal produto que as chuvas que ela sempre deu de graça pro Sul do país?

George Alberto de Aguiar Coelho - (george.coelho@bol.com.br)